A Nova Fronteira Verde: O papel do Brasil na reconfiguração global dos minerais críticos

O Brasil de 2025 se consolidou como o principal destino do capital chinês, atraindo expressivos US$ 6,1 bilhões distribuídos em 52 aportes — um salto de 45% em relação ao ano anterior, segundo o Conselho Empresarial Brasil-China. Mas enxergar essas cifras apenas sob a lente tradicional do Investimento Estrangeiro Direto é de uma miopia atroz. O que presenciamos não é um mero fluxo cíclico de capitais ou uma guinada transacional qualquer. Trata-se de um alinhamento estrutural profundo, quase uma convergência civilizatória, que se desenrola no exato momento em que a velha ordem liberal e suas instituições dão sinais de fratura.

Historicamente, a pauta econômica Sul-Sul vivia engessada na extração predatória de recursos, na diplomacia da dívida ou em manobras geopolíticas pontuais. Esse cenário recente desmancha de vez essa velha narrativa. Brasil e China, duas nações com demografias massivas, marcadas por disrupções imperialistas passadas e focadas numa modernização puxada pelo Estado, estão rascunhando um modelo de desenvolvimento multipolar. A injeção de dinheiro na nossa rede elétrica, mineração estratégica e manufatura de alta tecnologia dialoga de frente com as nossas prioridades de transição energética. Mais do que isso, manda para escanteio a lógica de financeirização de curto prazo e a austeridade típica do falido Consenso de Washington, apostando na soberania a longo prazo.

O epicentro das terras raras e a corrida pelo subsolo baiano

A base material dessa virada está na terra. Os investimentos deixaram de se concentrar apenas no eixo Sul-Sudeste, dando uma tração inédita aos estados do Norte e Nordeste. Apenas no setor de mineração, os aportes triplicaram, batendo a marca de US$ 1,76 bilhão com o radar focado no que realmente dita as regras do jogo hoje: cobre, níquel, grafite e minerais críticos em geral. O Brasil hoje senta em cima de 26,5% das reservas globais de grafite e ocupa o segundo lugar na oferta de terras raras, enquanto a China ainda domina amplamente o processamento global. O que vemos brotar dessa parceria não é exploração crua, mas a montagem de uma cadeia de suprimentos verticalizada e focada na descarbonização.

Essa ebulição geológica não atrai apenas os chineses; ela transformou o Brasil, e especialmente a Bahia, num ímã para exploradoras globais. Um exemplo prático do que está rolando no chão de fábrica da mineração vem da australiana Eminence Minerals (ASX:EMA). A exploradora, baseada em Perth, acabou de fechar um contrato com a brasileira Eco Sondagem, marcando um avanço e tanto para o seu Projeto Campo Grande, de propriedade integral da empresa no interior baiano.

A campanha deles não é pouca coisa e tem início cravado para este mês de junho. É um programa sistemático de sondagem a trado que prevê até 72 furos, somando uns 2.000 metros de perfuração. A engenharia do projeto foi desenhada para avaliar alvos de altíssima prioridade envolvendo terras raras em argila iônica e laterita. Operando numa malha de 200 por 200 metros, a ideia é atestar a continuidade geológica do depósito e dar todo o suporte necessário para uma futura estimativa de recursos minerais blindada pelos rigorosos padrões JORC.

E os caras têm motivos de sobra para acelerar as máquinas. Os alvos da Eminence estão fincados em três corredores prioritários interpretados como extensões geológicas das tendências de terras raras de Sulista, Monte Alto e Amargosa. Para dar a dimensão exata do negócio, essas áreas fazem fronteira direta com as concessões da Brazilian Rare Earths (ASX:BRE). Estamos falando de um peso-pesado regional, com valor de mercado batendo na casa de US$ 1 bilhão e que já botou na mesa resultados absurdos de perfuração com até 45,7% de óxidos totais de terras raras (TREO). A própria amostragem de reconhecimento da Eminence já pescou resultados de superfície com até 17.346 ppm de TREO. Aproveitando o embalo da campanha principal, eles ainda vão jogar as fichas em mais seis alvos regionais para gerar e priorizar novas frentes de exploração no projeto.

A infraestrutura de um novo ecossistema industrial

Saber que a Bahia agora abriga montadoras asiáticas e operações cirúrgicas de mineração como a da Eminence não é uma obra do acaso. Tudo isso é a espinha dorsal de um ecossistema industrial de baixo carbono se formando na prática. Um veículo elétrico exige seis vezes mais minerais críticos do que um carro a combustão convencional, amarrando a ponta da mineração baiana diretamente aos centros de montagem.

As montadoras BYD e GWM não pousaram na Bahia e em São Paulo para replicar aquele modelo ocidental defasado de apenas montar peças importadas. Elas nacionalizaram cadeias de valor. Em questão de poucos meses, a BYD conseguiu colocar quase 20 mil veículos eletrificados na rua, estruturando redes logísticas parrudas com fornecedores locais. Em paralelo, aportes como o da Rumo e COFCO em logística ferroviária prometem despencar em 80% as emissões de dióxido de carbono do escoamento de grãos e açúcar, aliviando a nossa crônica dependência do transporte rodoviário movido a diesel.

No fim das contas, tudo isso ecoa uma convergência filosófica que ganha corpo no território nacional. O conceito chinês de “civilização ecológica” — que amarra neutralidade de carbono e economia circular ao planejamento do Estado — cruza de forma muito orgânica com a visão brasileira que passa a reconhecer os direitos da natureza, enxergando nossos ecossistemas pelo seu valor intrínseco e não apenas como um gigantesco almoxarifado a ser saqueado. O recorde de 31 projetos focados em energia hidrelétrica, solar, eólica e mobilidade lançados no último ano é a prova real de que a transição energética não precisa ser um fardo. Nessa nova configuração, a política industrial verde vira o motor do desenvolvimento, deixando para trás a era em que o Norte Global ditava as regras e abrindo espaço para uma transição pragmática que respeita tanto os limites do planeta quanto a nossa própria soberania.