Sobrevivência aos extremos: do milagre em Galápagos aos resgates na costa da Flórida

A biologia costuma guardar surpresas que desafiam a nossa compreensão do tempo. Uma espécie de tartaruga gigante, que a comunidade científica dava como extinta há mais de um século, ainda caminha pelos terrenos inóspitos de Galápagos. Tudo começou em 2019, quando uma expedição encontrou uma fêmea solitária na remota e selvagem Ilha Fernandina. Agora, exames de DNA revelaram o que parecia impossível: ela é um exemplar puro de uma linhagem que não era registrada desde 1906.

Genética e adaptação ao fogo

Pesquisadores da Universidade de Yale cruzaram o código genético dessa fêmea, carinhosamente batizada de Fernanda, com amostras originais do início do século passado. A confirmação da espécie Chelonoidis phantasticus abriu um novo precedente para a conservação global. O impressionante é que essa sobrevivente conseguiu se manter escondida da ação humana e de predadores graças, ironicamente, ao ambiente hostil onde vive. A Ilha Fernandina é marcada por rios de lava seca e constantes erupções, um cenário severo que acabou criando um escudo geográfico natural.

Esse isolamento extremo foi fundamental para manter a genética do animal intacta. Ao contrário do que acontece em outras regiões do arquipélago, ela não cruzou com subespécies vizinhas. A tartaruga de Fernandina possui características muito peculiares, desenvolvidas sob medida para a vida nas encostas vulcânicas áridas. O casco em formato de sela, com bordas acentuadas e curvatura frontal, forma uma estrutura surpreendentemente leve. Isso permite que o animal estique bem o pescoço para alcançar a vegetação rala e mais alta. Apesar de Fernanda ter um porte menor, em condições ideais, sua espécie pode alcançar proporções colossais.

A corrida contra a extinção definitiva

Apesar da comemoração científica, a situação de Fernanda é delicada. O ambiente que a protegeu também é sua maior ameaça. O vulcão La Cumbre frequentemente remodela a paisagem da ilha com lava, a água doce é um recurso raro e a disputa por alimento com possíveis espécies invasoras complica ainda mais a rotina de sobrevivência. Conservacionistas sabem que o relógio está correndo. Encontrar apenas uma fêmea inviabiliza a recuperação populacional imediata na natureza. Por isso, as equipes trabalham agora com uma prioridade muito clara: rastrear e encontrar um macho sobrevivente para impedir que a espécie desapareça para sempre nesta geração.

O choque térmico nas águas americanas

Enquanto no Pacífico o perigo vem da aridez e do calor vulcânico, na costa leste dos Estados Unidos o cenário atual é completamente diferente. As tartarugas lutam contra um inimigo silencioso e congelante. Uma onda de frio rigoroso atingiu a Flórida recentemente, e o impacto não se limitou aos moradores do estado. Nas vias navegáveis, centenas de tartarugas marinhas sofreram um choque térmico severo, mobilizando uma força-tarefa imensa entre autoridades de vida selvagem, aquários e cidadãos comuns.

Diferente de mamíferos, esses répteis não conseguem regular a própria temperatura do corpo. Quando a água esfria demais e muito rápido, a exposição torna-se mortal. O quadro se assemelha a uma hipotermia profunda. As tartarugas ficam completamente letárgicas, perdem os sentidos e não conseguem sequer nadar em direção a correntes mais quentes para se salvarem.

Uma operação de resgate massiva

Diante do desastre iminente, os centros de reabilitação locais operam além da capacidade normal. Só na região da baía de Tampa, dezenas de animais estão recebendo cuidados intensivos. A Dra. Shelly Marquardt, veterinária-chefe do Clearwater Marine Aquarium, relatou que a instituição admitiu 36 tartarugas resgatadas na última semana e meia, vindas tanto de canais locais quanto da região do Panhandle. Para muitas delas, tudo o que o corpo precisa é de tempo e um ambiente aquecido para voltar a funcionar. Com as temperaturas da água do mar subindo novamente, a equipe já conseguiu libertar 15 desses animais no Honeymoon Island State Park.

Outras instalações também encaram um fluxo intenso. O hospital de reabilitação do Mote Marine Aquarium, em Sarasota, recebeu 25 tartarugas resgatadas diretamente da costa leste da Flórida. Em Apollo Beach, o Florida Aquarium abriu as portas no domingo do Super Bowl para os dois primeiros pacientes da temporada: dois animais juvenis que exigiam tratamento médico avançado, apelidados de Patriot e Seahawk, trazidos do noroeste do estado.

No meio desse esforço coletivo, histórias de resgates improváveis ganham destaque. Durante o período de frio extremo, Kevin Jennings, funcionário do departamento de polícia local, encontrou um indivíduo jovem encalhado nas areias de Treasure Island. Ele jurava que o bicho já não tinha mais vida. Mas, quando ele se aproximou, a tartaruga ergueu a cabeça. O animal, que ganhou o nome de Gaia pela equipe do Clearwater, agora responde bem aos tratamentos e aguarda apenas o resultado de alguns exames finais antes de ganhar o oceano novamente.